A profissão de fé!

Este livro deveria ser um dos livros de cabeceira de todos aqueles que professam a fé católica!

SANTO TOMÁS DE AQUINO

“SERMÃO SOBRE O CREDO”

Expositio in Symbolum Apostolorum

reportatio Reginaldi de Piperno

Tradução e Notas:

DOM ODILÃO MOURA, OSB

EDIÇÃO ELETRÔNICA

Rio de Janeiro, 2004

EDIÇÃO ELETRÔNICA PERMANÊNCIA

SEPARATA

Revista Permanência

nos. 63/1974 a 75/1975

 

INTRODUÇÃO

— A FÉ —

Durante a Quaresma de 1273, S. Tomás, entre outros sermões, proferiu este, que é uma das mais perfeitas exposições que existem sobre o Credo. Pronunciado em dialeto napolitano, foi traduzido fielmente (conforme atestam os testemunhos históricos) para o latim, pelos discípulos do Santo. Para ouvir a palavra do Doutor Angélico, acorriam às igrejas de Nápoles, os habitantes dessa agitada cidade medieval e os seus alunos universitários. Por isso o grande teólogo usava de uma linguagem mais acessível que a das suas obras teológicas. O conteúdo, porém, dos seus sermões, conserva a mesma profundeza doutrinária e a peculiar ortodoxia do Doutor Comum:

1 — O primeiro bem necessário para o cristão é a fé. Sem a fé ninguém pode ser chamado de fiel cristão.

2 — O primeiro bem é a união da alma com Deus. Pela fé realiza-se uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, conforme se lê no Profeta Oséias: “Desposar-te-ei na fé”. (Os 2, 20).

Quando o homem é batizado, deve, em primeiro lugar, confessar a fé ao responder à pergunta — crês em Deus? — porque o batismo é o primeiro sacramento da fé. O Senhor mesmo disse: “O que crer e for batizado será salvo” (Mc 16, 16).

O batismo sem a fé é destituído de valor. Deve-se, portanto, ter por certo que ninguém pode ser aceito por Deus sem a fé”. “Sem a fé é impossível agradar a Deus”, diz S. Paulo (Heb 11, 6).

Sto. Agostinho comentando este texto da carta aos Romanos — “Tudo o que não procede da fé é pecado” (14, 23), assim se expressa: “Onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é falsa mesmo nas pessoas retas”.

3 — O segundo bem é este: pela fé é iniciada em nós a vida eterna. A vida eterna não consiste senão em conhecer a Deus, conforme lê-se em S. João: “Esta é a vida eterna, que Vos conheçam como único Deus verdadeiro”. (Jo 17, 3). Esse conhecimento de Deus inicia-se aqui pela fé, mas é completado na vida futura, quando O conheceremos tal como é. Por isso lê-se na carta aos Hebreus: “A fé é a substância das coisas que se esperam” (11, 11). Ninguém alcançará a bem-aventurança eterna, sem que tivesse primeiramente o conhecimento de fé, pois está escrito: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20, 29).

4 — A vida presente é orientada pela fé: eis o terceiro bem. Para que o homem viva bem, convém que conheça os princípios do bem viver. Se pelo próprio esforço devesse aprender esses princípios, ou não chegaria a conhecê-los, ou só os poderia conhecer após um longo tempo. Mas a fé ensina todos os princípios do bem viver. Ora, ela ensina que há um só Deus, que Deus recompensa os bons e pune os maus, que existe uma outra vida, e outras verdades semelhantes. Esse conhecimento é suficiente para nos levar a praticar o bem e evitar o mal, pois diz o Senhor: “O meu justo vive da fé” (Hab 2, 4).

Eis porque nenhum filósofo antes da vinda de Cristo, apesar do grande esforço intelectual que despendiam, pôde chegar ao conhecimento de Deus e dos meios necessários para alcançar a vida eterna, como depois do advento do Cristo, qualquer velhinha chegou pela fé. Eis porque Isaías profetizou assim esse advento: “Encheu-se a terra da ciência de Deus” (11, 23).

5 — O quarto bem é que pela fé venceram as tentações, conforme lê-se nas Escrituras: “Os santos pela fé venceram os reinos” (Heb 11, 23). As tentações procedem do diabo, do mundo, ou da carne.

O diabo tenta para que tu não obedeças nem te submetas a Deus.

Ora, é pela fé que o repelimos, porque é pela fé que conhecemos que há um só Deus e que só a Ele devemos obedecer. Por isso escreveu São Pedro: “O diabo, vosso adversário, está rondando para ver se devora alguém: a ele deveis resistir pela fé” (1 Pd 5, 8).

O mundo nos tenta, seduzindo-nos na prosperidade, ou nos atemorizando nas adversidades. Mas ambas as tentações vencemos pela fé. Ela nos faz crer numa vida melhor, e, por isso, desprezamos as prosperidades do mundo e não tememos as adversidades. Eis porque está escrito: “Esta é vitória que vence o mundo, a vossa fé” (1 Jo 5, 4). Além disso, a fé nos ensina a acreditar que há males maiores, isto é, que existe o inferno.

A carne nos tenta, conduzindo-nos para os deleites momentâneos da vida presente. Mas a fé nos mostra que por eles, se a eles indevidamente aderimos, perderemos os deleites eternos. Por isso nos aconselha o Apóstolo: “Tende sempre nas mãos o escudo da fé” (Ef 6, 16).

Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé.

6 — Mas pode alguém objetar: é insensatez acreditar naquilo que não se vê: não se deve crer senão naquilo que se vê.

Respondo a essa objeção com os seguintes argumentos.

7 — Primeiro. É a própria imperfeição da nossa inteligência que desfaz essa dúvida. Realmente, se o homem pudesse por si mesmo conhecer perfeitamente as coisas visíveis e invisíveis seria insensato acreditar nas coisas que não vemos. Mas o nosso conhecimento é tão limitado que nenhum filósofo até hoje conseguiu perfeitamente investigar a natureza de uma só mosca.

Conta-se até que certo filósofo levou trinta anos no deserto para conhecer a natureza das abelhas. Ora, se a nossa inteligência é tão limitada assim, é muito maior insensatez não querer acreditar em algo a respeito de Deus a não ser naquilo que o homem pode conhecer por si mesmo d’Ele. Lê-se no livro de Jó: “Eis como Deus é grande e ultrapassa a nossa ciência” (36, 26).

8 — Segundo. Consideremos, por exemplo, um mestre que assimilou uma verdade e de um aluno pouco inteligente que a entendeu diversamente, porque não a atingiu. Ora, esse aluno pouco inteligente deve ser considerado como bastante tolo.

Sabemos que a inteligência dos Anjos ultrapassa a do maior filósofo, como a deste, a inteligência dos ignorantes. Portanto, seria tolo o filósofo que não acreditasse nas coisas ditas pelos Anjos. Ele seria muito mais tolo se não acreditasse nas coisas ditas por Deus. Lê-se, a esse respeito, nas Escrituras: “Foram-te apresentadas muitas verdades que ultrapassam a inteligência do homem” (Ec 3, 25).

9 — Terceiro. Se o homem não acreditasse senão nas coisas que vê, nem poderia viver neste mundo. Pode alguém viver sem acreditar em outrem? Como podes tu saber que este é teu pai? É, pois, necessário que o homem acredite em alguém, quando se trata de coisas que por si só não as pode conhecer. Ora, ninguém é mais digno de fé do que Deus. Por conseguinte, os que não acreditam nas verdades da fé não são sábios, mas tolos e soberbos. São Paulo refere-se a esses como sendo — “soberbos e ignorantes...” (1 Tm 6, 4). Por isso S. Paulo diz de si: “Sei em quem acreditei e tenho certeza...” (2 Tm 1, 12). Tudo isso é confirmado no Livro do Eclesiástico: “Vós que temeis o Senhor, acreditai n’Ele” (2, 8).

10 — Quarto. Pode-se ainda responder dizendo que Deus comprova as verdades da fé. Se um rei enviasse suas cartas seladas com o selo real, ninguém ousaria dizer que aquelas cartas não vinham do próprio rei. É claro que as verdades nas quais ossantos acreditaram e que nos transmitiram como sendo de fé cristã, estão seladas com o selo de Deus. Esse selo é significadopor aquelas obras que uma simples criatura não pode fazer, isto é, pelos milagres. Pelos milagres Cristo confirmou as palavras do Apóstolo e dos Santos.

11 — Pode, porém, replicar dizendo que ninguém viu esses milagres. É fácil responder a essa objeção. É conhecido que toda a humanidade prestava culto aos ídolos e que a fé cristã foi perseguida, confirmando-o, além do mais, a história do paganismo. Converteram-se todos, porém, em pouco tempo a Cristo. Os sábios, os nobres, os ricos, os governos e os grandes converteram-se pela pregação de poucos homens rudes e pobres.

Ora, de duas uma: ou se converteram por que viram milagres, ou não. Se foi porque viram milagres que se converteram, a tua objeção não tem sentido. Se não o foi, respondo que não poderia haver maior milagre que esse de todos os homens converterem-se sem terem visto milagres. Deves te dar por vencido.

12 — Eis porque ninguém pode duvidar da fé. Devemos acreditar mais nas verdades da fé do que nas coisas que vemos, por que a vista do homem pode falhar, mas a ciência de Deus é sempre infalível.

 

ARTIGO PRIMEIRO

— Creio em Deus, Pai todo poderoso, criador do céu e da terra —

13 — Entre todas as verdades nas quais os fiéis devem acreditar, em primeiro lugar devem acreditar que Deus existe 1.

Convém, além disso, considerar o que significa este nome — Deus.

Significa precisamente Aquele que governa e cuida de todas as coisas.

Acredita, por conseguinte, na existência de Deus, quem acredita que todas as coisas deste mundo são por Ele governadas, e estão subordinadas à sua Providência.

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O leitor deve estar sempre atento ao estilo de São Tomás, claro, conciso e lógico.

Não há palavras supérfluas. As palavras, no estilo do Doutor Angélico, têm o significado preciso e manifestam os conceitos de uma inteligência lúcida. Essa simplicidade despida de artifícios é adequada à comunicação da verdade pura.

Nota-se que São Tomás jamais apela para a emotividade ou para os recursos oratórios de sugestionamento. Ele quer que se aceite a verdade pela clarividência da verdade. Aceita a verdade pela inteligência, naturalmente a vontade inflamar-se-á de amor por ela. Esse método comunicativo de São Tomás é essencialmente humano. Para o homem de hoje, condicionado pelos processos comunicativos audiovisuais, pela propaganda subliminal e pelos recursos emocionantes, torna-se um tanto difícil, e por isso exige um esforço de atenção, seguir a tranqüila e pura apresentação da verdade feita por São Tomás. O seu estilo literário assemelha-se à pureza musical do estilo de Bach. O vocabulário de São Tomás por essa razão, não é muito rico, naturalmente dificultando a tradução, podendo parecer o seu estilo monótono. Mas se o leitor esforçar-se por penetrar na limpidez das suas frases, na rica repetição dos conceitos sempre com novas modalidades, sentir-se-á logo atraído pela beleza do estilo do Doutor Angélico e admirado pelas verdades que expõe. São Tomás é simbolizado pelo sol. O seu estilo tem os encantos da luz.

Atenta-se também neste sermão de São Tomás, que, provavelmente, seria mais de um sermão, o modo como a Sagrada Escritura é citada, ajustando-se espontaneamente, ao contexto e, fundamentando a doutrina exposta. Sem que se perceba, São Tomás aqui realiza uma atividade teológica inicial, quando a inteligência, usando apenas dos primeiros esforços do senso comum procura, sem argumentação metafísica e sem terminologia científica, penetrar no conteúdo das verdades reveladas.

Mas quem pensa que todas as coisas originam-se do acaso, não acredita na existência de Deus.

Não há ninguém tão insensato que não creia que a natureza seja governada, que esteja submetida a uma providência e que tivesse sido ordenada por alguém, vendo que tudo se processa a seu tempo, com ordem. Vemos o sol, a lua e as estrelas, e muitos outros elementos da natureza obedecerem a um determinado curso. Ora, isso não aconteceria se tudo viesse do acaso.

Eis porque seria um insensato o que não acreditasse na existência de Deus. tal asserção é confirmada pelo salmista: “O insensato diz em seu coração: não há Deus” (Sl 13, 1).

14 — Alguns há que acreditam que Deus governa e ordena as coisas naturais, mas não acreditam que Deus atinja, pela sua Providência, os atos humanos. Evidentemente pensam que os atos humanos não são ordenados por Deus. porque vêem no mundo os bons sofrerem e os maus prosperarem, concluem que a Providência Divina não atinge os homens.

Por eles falou Jó: “Deus anda pelos caminhos do céu, mas não cuida de nós” (22, 14).

Afirmar tal coisa, é grande insensatez. Acontece com os que assim pensam, o que acontece àqueles que vendo o médico bom conhecedor da medicina dar a um doente água e a outro vinho, julgassem, no seu desconhecimento da medicina, que o médico estava curando por acaso, e não, por motivo ponderado.

15 — Deus também age como médico. Por motivo justo e pela sua Providência dispõe Ele as coisas necessárias para os homens, quando aflige alguns bons e permite que alguns maus prosperem.

Quem acreditasse que isso fosse obra do acaso, evidentemente deveria ser um insensato, como de fato o é. Assim pensa, porque desconhece a maneira de Deus agir, e a razão pela qual dispõe as coisas. Lê-se também em Jó: “Oxalá Ele te revele os segredos da sua sabedoria e a multiplicidade dos seus planos” (11, 6). Por conseguinte deve-se crer firmemente que Deus governa e ordena as coisas naturais e também os atos humanos. Lê-se no Livro dos Salmos: “Disseram (os maus): Deus não vê. O Deus de Jacó não percebe as coisas. Compreendei agora, ó néscios! Ó estultos, até quando sereis insensatos? Aquele que nos deu as orelhas, não ouve? Aquele que nos pôs os olhos, não vê? O Senhor conhece os pensamentos dos homens” (103, 7-10).

Deus vê todas as coisas, os pensamentos e os segredos das vontades dos homens. Já que tudo o que pensam e fazem está patente aos olhos de Deus, os homens, de modo muito especial, são obrigados a praticar o bem. Escreve S. Paulo aos Hebreus: “Tudo está nu e descoberto aos seus olhos” (4, 13).

16 — Deve-se acreditar que este Deus que dispõe todas as coisas e as rege, é um só Deus. A razão por quê devemos acreditar nessa verdade é a seguinte: o governo das coisas humanas é um bom governo, quando um só as dispõe e as governa.

Uma multiplicidade de dirigentes constantemente provoca disenções entre os súditos. Ora, como o governo divino é superior ao humano, torna-se claro que o governo do mundo não pode ser feito por muitos deuses, mas por um só.

17 — Os homens são levados ao politeísmo por quatro motivos:

O primeiro, é a fraqueza da inteligência humana. Há homens, cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas, e, por isso, não acreditaram na existência de alguma natureza superior aos seres corpóreos.

Pensaram então que, entre aqueles seres corpóreos, os mais belos e mais dignos deveriam presidir e dirigir o mundo, e prestaram a eles um culto divino. Consideraram como sendo os corpos mais sublimes, os astros do céu: o sol, a lua e as estrelas. Acontece com eles o que aconteceu com aquele homem que, desejando ver o rei, foi à corte, e confundiu com o rei quem logo encontrou bem vestido, ou exercendo alguma função de ministro. Refere-se a esses o Livro do Profeta Isaías: “Levantai bem alto os olhos, e vede a terra por baixo. Os céus evaporar-se-ão como a fumaça, a terra envelhecer-se-á como as vestes e os seus habitantes perecerão como ela. Mas a minha salvação será eterna, e a minha justiça não terá fim” (51, 6).

18 — O segundo motivo, é a adulação dos homens. Muitos desejando adular os reis e os senhores, tributaram-lhes a honra devida a Deus. Obedeceram e se submeteram a eles. Houve quem os endeusassem após a morte, e houve os que os endeusaram também em vida. Lê-se na Escritura: “Todos saibam que Nabucodonosor é deus da terra, e além dele outro deus não há” (Jud. 5, 29).

19 — O terceiro motivo provém da afeição carnal para os filhos e parentes. Alguns, levados por excessivo amor pelos parentes, levantaram-lhes estátuas após a morte, e, assim foram conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. É a eles que se refere a Escritura: “Deram os homens às pedras e à madeira um nome incomunicável, porque submeteram-se demais a afeição aos reis” (Sab. 14, 21).

20 — A quarta razão, pela qual os homens são levados a acreditar na existência de muitos deuses, é a malícia do diabo. Este, desde o início, quis ser igual a Deus: “Colocarei meu trono no Aquilão, subirei aos céus e serei semelhante ao Altíssimo” (Is. 14, 13).

Até hoje ele não revogou essa vontade. Por isso esforça-se o mais possível para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios.

Não lhe satisfaz o ofertório de um cão ou de um gato, mas deleita-se quando lhe é prestado o culto devido a Deus. Disse o demônio a Cristo: “Dar-te-ei tudo isto se de joelho me adorares” (Mat. 4, 9). Para que fossem adorados como deuses, os demônios entraram nos ídolos e por meio destes davam respostas. Lê-se na Escritura: “Todos os deuses dos povos são demônios” (Ps. 95, 5).

“Quando os gentios oferecem sacrifícios, fazem-no aos demônios, não a Deus” (I Cor. 10,20).

21 — É muitíssimo desagradável a consideração dessas quatro causas do politeísmo, mas representam realmente as razões pelas quais os homens acreditam na existência de muitos deuses.

Muitas vezes eles não manifestam pelas palavras ou pelo coração que acreditam em muitos deuses, mas pelo atos. Aqueles que acreditam que os astros podem modificar a vontade dos homens, que para agir esperam certas épocas, naturalmente consideram os astros como deuses que dominam os outros seres e que fazem prodígios. Por isso somos advertidos pela Escritura: “Não temei os sinais dos astros que os gentios temem, porque as suas leis são vãs” (Jer. 10, 2).

Também aqueles que obedecem aos reis, ou aos que não devem obedecer, mais que a Deus, constituem a essas pessoas como os seus deuses. Adverte-nos também a Escritura: “Convém mais obedecer a Deus que aos homens” (At. 5, 29).

Assim também os que amam os filhos e os parentes mais que a Deus, revelam pelos atos que acreditam em muitos deuses. Ou mesmo aqueles que amam mais os alimentos que a Deus, aos quais se refere S. Paulo com estas palavras: “Dos quais o ventre é deus” (Tm 3, 19).

Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios acreditam nos demônios como se eles fossem deuses, porque pedem aos demônios o que só se pode pedir a Deus, como sejam revelações e conhecimentos de coisas secretas ou futuras.

Como tudo isso é falso, devemos acima de tudo acreditar que há um só Deus.

22 — Como dissemos, deve-se primeiramente acreditar que há um só Deus. Em segundo lugar, deve-se acreditar que este Deus é criador, que fez o céu e a terra, as coisas visíveis e invisíveis.

Deixemos por ora, de lado, os argumentos sutis e, por meio de um exemplo bem simples, esclareçamos como todas as coisas foram criadas e feitas por Deus.

Se alguém indo a uma casa e desce a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerarmos as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas a Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos

inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis.

Deves então acreditar que todas as coisas têm a origem num só Deus, que lhes dá a existência e a perfeição.

Lê-se na Sagrada Escritura: “São insensatos todos os homens que não conhecem a Deus, e que pelas coisas que viam, não compreenderam Aquele que existe, nem vendo as obras, conheceram o artista” (Sab. 43, 1). Lê-se no mesmo contexto: “Pela beleza e grandeza da criatura se pode conhecer e contemplar o seu criador” (43, 5).

Devemos, portanto, ter por certo que todas as coisas foram criadas por Deus.

23 — Com relação a isso, três erros devem ser evitados.

O primeiro, é o erro dos Maniqueus 2. Para eles, as coisas visíveis foram criadas pelo diabo, e só as invisíveis, por Deus.

Fundamentam o seu erro numa verdade, que Deus é o sumo bem e tudo o que por ele é feito, por um ser bom, deve ser bom também; mas não distinguindo o bem do mal, creram eles que tudo o que de certo modo tivesse algo de mal, seria totalmente mal. Dizem que o fogo é totalmente mal, porque queima; que a água é má, porque afoga; e, assim, das outras coisas que produzem um efeito mau. Ora, como nenhuma das coisas sensíveis é simplesmente boa, mas de certo modo má e deficiente, concluíram que todas as coisas visíveis não foram feitas por Deus, que é bom, mas por um ser mau.

Para refuta-los Santo Agostinho apresentou o seguinte exemplo:

se alguém entrasse na casa de um operário e aí encontrasse uma ferramenta que o ferisse, e, por esse motivo, concluísse que o operário era mau, porque usa tais ferramentas, seria um tolo, porque ele as usa tão somente para o trabalho. Eis porque é tolice dizer que as criaturas são totalmente más, porque em algum aspecto são nocivas.

Podem elas ser nocivas para uns, mas úteis, para outros. Esse erro vai contra a fé da Igreja, pois recitamos no Credo:

“Criador das coisas visíveis e invisíveis”. Fundamenta-se essa verdade na Escritura: “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1, 1). “Todas as coisas foram feitas por Ele” (Jo 1, 3).

2____________________

O Maniqueísmo é uma seita sincretista, com elementos de religião persa do Masdeísmo, das correntes gnósticas orientais e do cristianismo. Fundou-a Maní, persa, que viveu de 216 a 776. Ela expandiu-se pelo oriente e pelo ocidente cristão, tomando na Espanha, no século IV, a feição priscilianista, onde acrescentou-se à doutrina a prática de atos libidinosos, repercutindo ainda no século XII nas heresias dos cátaros e dos albigenses. Santo Agostinho foi maniqueu, mas antes da conversão para o catolicismo já havia abandonado o Maniqueísmo e se passara para o neo-platonismo. Combateu os erros maniqueus em quase todas as suas obras. Sob o aspecto doutrinário, o Maniqueísmo é um sistema gnóstico, isto é, unia princípios filosóficos a idéias religiosas, buscando nisso a libertação do homem. O fundamento do sistema maniqueu era o dualismo que afirmava haver dois reinos em conflito, o da luz, presidido por Deus, e o das trevas, pelo demônio. A vida na terra é uma repercussão desse conflito, onde Jesus entrou como elemento purificador, e, no fim dos tempos, haverá a vitória do reino da luz.

24 — O segundo erro que deve ser evitado é o dos que afirmam que o mundo é eterno 3. Coloca S. Pedro na boca dos que assim falam, estas palavras: “Desde que nossos pais morreram, tudo permanece como depois do começo da criação” (2 Ped. 3, 4).

Foram levados a essa convicção porque não souberam considerar bem o início do mundo. O Rabi Moisés comparou-os a uma criança que desde o nascimento fora levada para uma ilha onde nunca pôde ver uma mulher grávida, nem o nascimento de um homem. Se quando crescesse lhe fosse dito com um homem é concebido, como é carregado por nove meses no seio materno e como nasce, ele não acreditaria no que estava ouvindo, porque lhe pareceria ser impossível um homem ser gerado no seio materno.

Do mesmo modo comportam-se os que pensam que o mundo é eterno, porque não lhe viram o começo. Quem pensa assim, está também em oposição à fé da Igreja, pois recitamos no Credo a verdade: “Creio em Deus... que fez o céu e a terra”.

Ora, se as coisas foram feitas, é claro que não poderiam ter sempre existido. Lê-se na Escritura: “Deus disse, e as coisas foram feitas” (Ps. 148, 5).

3____________________

Que o mundo foi criado por Deus sem haver matéria preexistente, “ex-nihilo” é uma verdade que só se encontra na Revelação judeu-cristã. Aristóteles afirmava a eternidade do mundo, tese reassumida pelo filósofo árabe Averróis (1126-1198), cuja influência nos tempos de São Tomás foi considerável.

São Tomás nega, por ser a criação verdade revelada, a eternidade do mundo, mas admite que Deus poderia ter feito o mundo desde toda a eternidade, isto é, que não repugna à razão admitir a possibilidade da eternidade do mundo.

São Tomás assim explica o conceito de criação: “(Deus) por sua ação produz todo o ser subsistente, não pressupondo nenhum outro ser, pois que Ele é o princípio de toda existência, totalmente por si mesmo. Por esse motivo pode fazer alguma coisa do nada: essa ação chama-se criação” (De pot. 3, 1c.).

4____________________

Dois grandes pensadores judeus tiveram influência na formação da teologia católica: Filo, neo-platônico, que nos primeiros séculos do cristianismo trouxe farta contribuição para a Escola de Alexandria, e o Rabi Moisés, aqui citado por São Tomás, que viveu este em Córdova e Alexandria entre 1135 e 1204. É conhecido na filosofia com o nome de Maimônides. É considerado o maior teólogo do judaísmo. São Tomás refere-se a ele sempre com muito respeito.

25 — O terceiro erro a respeito da origem do mundo é seguido por aqueles que afirmam ter sido o mundo feito de uma matéria preexistente. Chegaram a esse erro, porque quiseram medir o poder de Deus pelo nosso. Como o homem nada pode fazer sem uma matéria preexistente, assim também Deus para produzir as coisas usou de uma matéria que já existia. Isso não é verdadeiro.

O homem nada pode fazer sem uma matéria preexistente, porque a sua capacidade de operação é limitada, e, assim só pode dar forma a uma matéria que já existia. O seu poder está limitado para operar só para esta forma, e, por isso, não pode ser causa senão dela.

Deus, porém, é a causa universal de todas as coisas, e não só cria a forma, mas também a matéria. Por isso fez todas as coisas do nada. Recitamos no Credo essa verdade: “Criador do céu e da terra”.

Há diferença entre criar e fazer: criar, é tirar alguma coisa do nada; fazer, é produzir uma coisa de outra coisa.

Se Deus criou as coisas do nada, deve-se também acreditar que ele pode refaze-las todas, se elas forem destruídas. Pode dar vista a um cego, ressuscitar um morto e fazer outros milagres. Diz a Escritura: “O poder está a Vós submetido, quando quereis” (Sb 12, 18).

26 — Das verdades acima enunciadas podemos tirar cinco conclusões práticas. Em primeiro lugar, como devemos considerar a divina majestade.

Se o artista é superior às obras, Deus, sendo o artista criador de todas as coisas, evidentemente é superior a tudo o que existe. Diz a Escritura: “Se os homem atraídos pela beleza dos seres consideraram-nos deuses, saibam eles em quanto o Senhor deles e mais belo que eles...; ou se ficaram admirados pelo poder dos seres e pelas obras que produzem, compreendam como é aquele que os fez é mais poderoso” (Sb 13, 34). Por isso tudo o que podemos compreender ou pensar de Deus, é inferior a Ele! Diz a Escritura: “Eis o Deus grandioso que está acima de nossa ciência” (Jó 36, 26).

27 — Em segundo lugar, devemos dar graças a Deus. porque Deus é o criador de todas as coisas, tudo o que somos e tudo o que temos, nos vêm de Deus. diz o Apóstolo: “O que tens, que não recebestes?” (1 Cor 4, 7). Lê-se no Saltério: “Do Senhor é a terra e tudo o que a enche; o mundo e todos os seus habitantes” (Sl 23, 1). Por isso devemos sempre render graças a Deus: “Que retribuirei ao Senhor, por tudo o que Ele me deu?” (Sl 115, 12).

28 — Em terceiro lugar, devemos suportar as adversidades com paciência. Pois se todas as criaturas vêm de Deus, e por isso são boas por natureza, mesmo se em alguma coisa nos prejudicam se nos trazem penas, devemos acreditar que essas penas foram enviadas por Deus. A culpa nossa, porém, não pode vir de Deus, porque nenhuma mal pode vir de Deus, a não ser que ela seja dirigido para um bem. Ora, se toda pena que nos vem é enviada por Deus, devemos pacientemente suporta-la. As penas nos purificam dos pecados, humilham os réus, desafiam os bons para o amor de Deus. lê-se no livro de Jó: “Se recebes os bens das mãos de Deus, porque não recebemos também os males?” (Jó 2, 10).

29 — Em quarto lugar, devemos usar bem das coisas criadas. As coisas devem ser usadas conforme as finalidades que lhes foram dadas por Deus. As coisas foram criadas para dois fins: para a glória de Deus, porque “todas as coisas para Si mesmo Deus as fez” (Pr 16, 4), e para nossa utilidade, porque “Deus fez todas as coisas para servirem aos povos” (Dt 4, 19).

Devemos usar de todas as coisas para a glória de Deus, e muito lhe agradaremos com isso, mas também para nossa utilidade, evitando sempre o pecado. Diz a Escritura: “De vós são todas as coisas e o que recebemos das vossas mãos, vos damos” (1 Paral. 29, 14).

O que quer que possuas, seja a ciência, seja a beleza, tudo deves usar e dirigir para a glória de Deus.

30 — Em quinto lugar, porque fomos criados por Deus, devemos reconhecer a nossa dignidade.

Deus fez todas as coisas para o homem, como se lê na Escritura: “Todas as coisas submetestes aos seus pés” (Sl 8, 8). O homem, depois dos anjos, é a criatura que mais se assemelha a Deus, como se lê no livro do Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (1, 16). Não se referiu Deus neste texto nem às estrelas, nem aos céus, mas ao homem.

Não é, porém, pelo corpo, mas pela alma, que possui vontade livre e incorruptível, que o homem mais se assemelha a Deus que as outras criaturas.

Devemos, pois, considerar que o homem é, depois dos Anjos, o mais digno que todas as outras criaturas, e, por conseguinte, de maneira nenhuma queiramos diminuir essa nossa dignidade pelo pecado ou por algum desejo desordenado de coisas corpóreas, pois elas são inferiores a nós e foram feitas para nos servir. Que nos comportemos de acordo com os desígnios de Deus ao nos criar. Deus fez o homem para governar tudo o que há na terra, mas para que o homem ficasse submetido a Ele. Devemos, por isso, dominar e governar o mundo, mas nos submetendo a Deus, a Ele obedecendo e servindo. Por esse caminho certamente chegaremos à união com Deus. Amém.

 

ARTIGO SEGUNDO

— Creio em Jesus Cristo, Seu Único Filho, Nosso Senhor —

31 — Não é somente necessário crerem os cristãos que existe um só Deus, e que Ele é Criador do céu, da terra e de todas as coisas, mas também é necessário crerem que Deus é Pai e que Jesus Cristo é seu verdadeiro Filho.

Esse mistério não é um mito, mas uma verdade certa e comprovada pela palavra de Deus no monte, conforme a afirmação de S. Pedro: “Porque não foi baseando-nos em fábulas engenhosas que vos demos a conhecer o poder e a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade com os nossos próprios olhos. Porque Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foram dirigidas estas palavras: ‘Este é meu Filho muito amado, em quem pus as minhas complacências’. E nós mesmos ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo” (II Ped. 1, 16-18).

O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai, e, também, denominava-se Filho de Deus.

Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus, quando definiram este artigo do Credo: “E em Jesus Cristo seu Filho”, isto é, Filho de Deus.

32 — Mas existiram alguns heréticos que acreditaram de um modo perverso nessa verdade de fé.

Fotino 5, um deles, declarou que Cristo não é filho de Deus senão como os outros homens bons o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto fazem a vontade de Deus.

Do mesmo modo, dizem eles, Cristo, que viveu bem e fez a vontade de Deus, mereceu ser chamado de Filho de Deus.

O mesmo herético queria que Cristo não tivesse existido antes da Virgem Maria, mas que só começasse a existir quando nela foi concebido.

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; o outro, porque disse que Ele começou a existir, conforme todo o seu ser, no tempo, enquanto a nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno.

Ora, essa duas verdades encontram-se claramente expressas na Sagrada Escritura, opostas que são ao que ele afirma.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito: “O Unigênito que está no seio do Pai é que O fez conhecido” (Jo. 1, 18). Contra o segundo, lê-se: “Antes de Abraão existir, eu já existia” (Jo. 8, 58).

Ora, é certo que Abraão existiu antes da Virgem Maria.

Por esse motivo, os Santos Padres acrescentaram, em outro símbolo 6, contra o primeiro erro: “Filho de Deus Unigênito”; e, contra o segundo: “nascido do Pai antes de todos os séculos”.

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5 A heresia do Bispo Fotino de Sírmio (✝ 376) tem sua fonte próxima na do Bispo Marcelo de Ancira (✝ 374) e, remota, no Monarquismo Dinâmico. Esta, propalada em Roma pelo grego Teódoto em 190, condenada pelo Papa Vitor, ensinava que Cristo era simples homem e, no batismo, foi revestido de poderes divinos. Marcelo ensinava que havia uma mônada que evoluiu com o aparecimento do Filho, na Encarnação, e do Espírito Santo, em Pentecostes. No fim dos tempos voltarão o Filho e o Espírito para a mônada primitiva. Não há, portanto, trindade eterna.

Contra Marcelo foi acrescentado no Símbolo: “e o seu reino não terá fim”.

S. Tomás sintetiza fielmente o erro de Fotino neste sermão.

Fotino foi condenado várias vezes, destituído da Diocese de Sírmio e exilado. Os seus asseclas perseveraram até o século VII.

6 Sendo a fé, por parte do homem, primeiramente um ato de conhecimento da inteligência, devem ter sentido as palavras que exprimem as suas verdades. Por isso a Igreja, desde os tempos Apostólicos, exigia, dos que procuravam o batismo, inteligência das palavras da fé, que eram definidas. Para que essa finalidade fosse alcançada, formularam-se sínteses das verdades fundamentais da fé com palavras de sentido preciso, compreensível e tradicional. Eram os símbolos da fé. A palavra símbolo, que primitivamente, na língua grega, significava um objeto que se dividia em duas partes, como contra-senha para identificação posterior, na tradição católica designava o resumo das verdades da fé que identificavam a religião de Cristo. Como começava pela palavra Credo, esta tornou-se sinônimo de Símbolo.

Na antiguidade o Credo era unido ao ritual do catecumenato, isto é, na preparação para o batismo: os “electi” (eleitos) acabavam a sua preparação recebendo os ensinamentos do Símbolo da Fé (Traditio Symboli = entrega de símbolo), e depois deviam recita-lo diante do Bispo (redditio symboli = devolução do símbolo). Com o correr dos tempos, para maior defesa contra as heresias, passou para a Liturgia Eucarística. A sua posição atual, após o Evangelho das Missas, foi introduzida por Carlos Magno (✝ 794), para combater a heresia do adopcionismo.

Os Símbolos mais antigos e mais importantes são os seguintes:

I) Símbolo dos Apóstolos: É o mais antigo Símbolo da Igreja, chamado por Tertuliano de “Regula Fidei”, cujas origens vêm dos tempos dos Apóstolos, conforme a tradição. A sua mais primitiva fórmula, baseada nas Escrituras, seria a seguinte: “Creio no Pai Todo Poderoso; em Jesus Cristo, nosso Salvador; no Espírito Santo Paráclito, na Santa Igreja e na remissão dos pecados”.

Como se vê, nele estavam contidos os Mistérios da Trindade, da Encarnação e da Redenção. A fórmula atual do Símbolo Romano tem suas origens no século III.

Consta de 12 artigos.

II) Símbolo de Santo Atanásio: É uma profissão de fé mais ampla, atribuída a Santo Atanásio, mas provavelmente foi transmitida por Santo Ambrósio (séc. IV) que a recebera da tradição. Procura definir com bastante exatidão o Mistério da Santíssima Trindade.

III) Símbolo de Nicéia: Elaborado e aprovado no Concílio Ecumênico de Nicéia. O Concílio de Nicéia foi convocado pelo Imperador Constantino para pôr fim à heresia do arianismo (nota 8). Presidiu-o o Bispo Ósio e os representantes do Papa Silvestre. Participaram dele mais 300 Bispos. Na sessão de 19 de junho de 325 foi aprovado o “Símbolo de Nicéia”, onde é definido que o Filho é da mesma natureza do Pai: “Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado, não criado, da idêntica natureza do Pai”.

IV) Símbolo Niceno-Constantinopolitano: Elaborado e aprovado no Concílio Ecumênico de Cosntantinopla, reunido nesta cidade no ano de 31. Reproduz o Símbolo de Nicéia, fazendo alguns acréscimos, principalmente com relação à Terceira Pessoa da Trindade: “e (nós cremos) no Espírito Santo, Senhor e vivificador, procedente do Pai, que é adorado e glorificado juntamente com o Pai e o Filho, e que falou pelos Profetas”.

É na Igreja Oriental a fórmula única de profissão de fé.

Há outras profissões de fé na Igreja antiga, uma mais, outras menos, desenvolvidas, mas todas concordes no sentido das palavras e nos mistérios da fé.

33 — Sabélio 7, embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a Pessoa do Pai outra não era que a do Filho, e que o próprio Pai se encarnou. Desse modo, a Pessoa do Pai seria a mesma que a do Filho. Mas isso é um erro, porque destrói a trindade das Pessoas. Contra esse erro, há a autoridade do Evangelista S. João, que nos relatou as palavras do próprio Cristo: “Eu não sou Eu só; sou Eu e o Pai que me enviou” (Jo. 8, 16).

Ora, é evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se por isso, no Símbolo dos Padres: “Deus de Deus, luz de luz”; isto é, Deus Filho de Deus Pai; Filho que é luz, luz que procede do Pai, que também é luz. É nessas verdades que devemos crer.

34 — Ário 8, embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma a Pessoa do Pai, outra, a do Filho, atribuiu, ao ser de Cristo, três erros: primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas, não desde a eternidade, mas no tempo; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus Filho com Deus Pai, e, por esse motivo, Cristo era verdadeiro Deus.

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7 Sabélio (século II) não aceitava a Trindade em Deus, mas confundia as Pessoas numa só unidade em Deus. Para ele, as Pessoas são modos em que Deus se manifesta. A sua heresia é denominada “monarquianismo modalista”, e, também, “patripassionismo”, ou, ainda, “sabelianismo”.

Admitia três manifestações de Deus: como Pai, na criação e legislação; como Filho, na redenção, e, como Espírito Santo, na obra de santificação.

8 O Arianismo foi a mais perigosa heresia dos primitivos tempos do cristianismo.

Foi seu criador um sacerdote de Alexandria, chamado Ario (✝ 336). Ensinava ele um certo subordicianismo, heresia mais antiga, que afirmava ser o Filho subordinado ao Pai, negando-lhe, desse modo, identidade de natureza. Para Ario, o Filho era um ser divino de segunda ordem, o qual, por ser desprovido dos atributos absolutos da divindade, podia realizar a criação e a redenção.

Há na doutrina de Ario dependência da mentalidade neoplatônica reinante no seu tempo. O arianismo ensinava que “houve um tempo em que o Verbo não era”, e “ele (o Verbo) provém do não ser”. Portanto, a Segunda Pessoa seria uma criatura.

Condenada a heresia pelo Concílio de Nicéia (nota 6), não cessou a sua obra deletéria nos meios católicos, tomando novo alento com os dois Imperadores arianos Constâncio (337-361) e Valente (364-378). O Imperador Teodório, o Grande (379-395), reafirmando a ortodoxia católica, conseguiu atenuar os males do arianismo, que por mais de 50 anos dilaceraram a Igreja. Foi definitivamente condenado pelo Concílio de Constantinopla, de 381, após polêmicas violentas, lutas e separações entre os católicos.

Se a Tradição ortodoxa teve a seu lado grandes doutores da Igreja como Atanásio, Basílio, Gregório de Lauzianze e grandes Bispos, os arianos conseguiram envolver

muitos Bispos e católicos nas suas ambíguas e imprecisas fórmulas heterodoxas.

A heresia tomou tal proporções nos meios católicos que S. Jerônimo chegou a descrever a situação com essas palavras: “Lastimou-se todo o orbe e admirou-se porque estava ariano”.

Tais afirmações são evidentemente errôneas por que contrárias à autoridade da Sagrada Escritura.

Lê-se no Evangelho de S. João: “Eu e o Pai somos um” (Jo. 10, 30), isto é, pela natureza. Ora, como o Pai sempre existiu, do mesmo modo o Filho; como o Pai é verdadeiro Deus, assim também o Filho.

Em oposição à afirmação de Ário, isto é, que Cristo é criatura, está declarado no Símbolo dos Padres: “gerado, não feito”.

Contra o erro propalado de que Ele não era da mesma substância do Pai, foi acrescentado no Símbolo: “consubstancial com o Pai”.

35 — Está, pois, esclarecido porque devemos crer que Cristo é o Filho Unigênito de Deus, e verdadeiro Filho de Deus; que sempre existiu com o Pai; que uma é a Pessoa do Filho, outra, a do Pai; que Ele tem uma só natureza com o Pai.

Cremos nessas verdades, aqui, pela fé; conhecê-las-emos, porém, na vida eterna, por uma perfeita visão.

Para nossa consolação, acrescentemos algumas palavras a essas verdades.

36 — Devemos saber que há diversos modos de geração, conforme a diversidade dos seres.9 A geração em Deus, é diferente da geração nos outros seres. Por isso, não podemos chegar a conhecer a geração de Deus, a não ser por meio da geração de criaturas que mais se aproximam de Deus e que mais se assemelham a Ele. Ora, como foi dito, nada se assemelha tanto a Deus, como a alma humana.

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9 Aqui S. Tomás esclarece-nos como a possessão do Verbo na Trindade é uma geração, donde a Segunda Pessoa denominar-se também Filho. No texto latino a palavra e o conceito são expressos pelo mesmo termo — verbum —, podendo-se então mais de perto seguir o pensamento do Doutor Angélico.

A questão é tratada com notável clareza na Suma Teológica em linguagem teológica, da qual neste sermão percebe-se a influência.

Define S. Tomás geração, conforme realiza-se nos seres vivos, como sendo a “origem de um ser vivo, de um principio vivo conjunto”. Aplica a definição à possessão da Segunda Pessoa:

“Portanto a possessão do Verbo em Deus tem a formalidade de uma geração. Ele procede à semelhança de ação inteligível, que é uma operação vital; de um princípio vivo conjunto, como foi dito anteriormente (isto é, da inteligência divina), e de modo semelhante, porque o conceito intelectivo é semelhante coisa conhecida; e na mesma natureza, porque em Deus ser e conhecer são a mesma realidade... Por conseguinte a processão do Verbo em Deus chama-se geração, e o próprio Verbo procedente chama-se Filho” (S. T. I. 7, 2; cf. I. 27, 1; cf. I. 34, 2).

Há, na alma, uma espécie de geração, quando o homem conhece alguma coisa pela própria alma, que se chama conceito intelectivo.

Esse conceito (efeito da concepção) tem a sua origem da própria alma, como de um pai. Chama-se verbo (isto é, palavra) da inteligência ou do homem.

A alma, portanto, gera o seu verbo, pelo conhecimento.

O Filho de Deus, também, nada mais é que o Verbo de Deus, não como se fosse um verbo (uma palavra) já pronunciado exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um verbo (uma palavra) concebido no interior. Eis porque o próprio verbo de Deus possui uma só natureza de Deus, e é igual a Deus.

O Bem-aventurado João, quando falou do verbo de Deus, destruiu as três heresias acima definidas: a de Fotino, quando disse: “No princípio era o Verbo”; a de Sabélio, quando disse: “e o verbo estava em Deus”; e a de Ário, quando disse: “e o Verbo era Deus”.

37 — Mas o Verbo (a palavra) existe diversamente em nós e em 10 Deus. Em nós, o verbo é um acidente ; em Deus, o Verbo de Deus mais identifica-se com o próprio Deus, pois nada há em Deus que não seja essência de Deus.

Ninguém pode afirmar que Deus não possui um verbo, porque, se o fizesse, estaria também afirmando que em Deus não há absolutamente conhecimento. Como, porém, Deus sempre existiu, assim também o seu Verbo.

38 — Como o artista executa as suas obras de acordo com o modelo que prefigurou em sua inteligência, que é o seu verbo; assim também Deus faz todas as coisas pelo seu Verbo, que é como o seu pensamento artístico. Por isso lê-se em S. João: “Todas as coisas foram feitas por Ele” (Jo. 1, 3).

39 — Se o Verbo de Deus é o Filho de Deus e todas as palavras (os verbos) de Deus possuem alguma semelhança com esse verbo, todos nós devemos, em primeiro lugar, ouvir com satisfação as palavras de Deus. Se ouvirmos com prazer as palavras de Deus, isto é sinal de que amamos a Deus.

40 — Em segundo lugar, devemos crer nas palavras de Deus, porque é assim que o Verbo de Deus habita em nós, isto é, Cristo, que é o Verbo de Deus. Lê-se no Apóstolo S. Paulo: “Habitar Cristo, pela fé, em vossos corações”. (Ef. 3, 17). Lê-se também em S. João: “Não tendes o Verbo de Deus permanecendo em vós porque não acreditais n’Aquele que Ele enviou”. (Jo. 5, 38).

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10 S. Tomás assim precisa a noção de substância: “A substância que é sujeito tem duas propriedades: primeiro, não ter necessidade de um fundamento extrínseco para ser sustentada, mas sustenta-se em si mesma; segundo, ser fundamento dos acidentes, sustentando-os, e por isso diz-se que sub-está” (Pot. 9, 1). A substância subsiste em si mesma e sustenta os acidentes. Acidente é justamente o ser que existe, mas não subsiste, porque está ardente à substância. “Acidente — diz S. Tomás — é o ser cuja essência deve estar em outra coisa” (Qdc. IX, 5, ad 2) “Convém que o ser deles (isto é, dos acidentes) seja acrescido ao ser da substância, e dependente deste” (C. G. IV, 14).

O acidente é um ser secundário, mais imperfeito que o ser da substância e, sem a sua substância, o acidente não pode existir (a não ser por um milagre de Deus). “A substância, diz Aristóteles, é o simples ser e se realiza por si mesmo: todos os outros gêneros de ser diversos da substância, são seres de certo modo e existem pela substância. Por conseguinte, a substância é o primeiro entre os seres” (Met., VII, 1, 1028).

41 — Em terceiro lugar, convém que sempre tenhamos o Verbo de Deus, que permanece em nós, como objeto das nossas meditações. Não é conveniente apenas crer, mas é necessário também meditar, pois de outro modo, a fé não nos seria útil. A meditação sobre o Verbo de Deus é muito útil contra o pecado. Lê-se nos Salmos: “Escondi no meu coração a Vossa palavra, para não pecar contra vós” (Ps. 118, 11). Lê-se, ainda, a respeito do homem justo: “Meditarei dia e noite na Sua Lei” (Ps. 1, 2). Por isso sabemos que a Virgem Maria “conservava todas essas palavras, meditando sobre elas no seu coração” (Lc. 2, 51).

42 — Em quarto lugar, convém que o homem comunique aos outros a palavra de Deus, admoestando, pregando-a para eles e afervorando-lhes a fé. Encontram-se nas cartas de S. Paulo os seguintes textos: “Que nenhuma palavra má proceda da vossa boca, mas somente as boas palavras que edificam” (Ef. 4, 29).

“Que a palavra de Cristo habite em vós abundantemente, com toda sabedoria, culminando e admoestando uns aos outros” (Col. 3, 16); “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, pede e ameaça com toda a paciência e com toda a doutrina” (II Tess. 4, 2).

43 — Em último lugar, devemos cumprir o que a palavra de Deus determinou. Lê-se em S. Tiago: “Sede realizadores da palavra de Deus e não apenas ouvintes, enganando-vos uns aos outros” (Tiag. 1, 22).

44 — Na mesma ordem, a Bem-aventurada Virgem Maria seguiu essas cinco recomendações, quando nela foi gerado o Verbo de Deus. Primeiramente, ouviu: “O Espírito Santo virá sobre ti” (Lc. 1, 35). Depois, consentiu pela fé: “Eis a escrava do Senhor” (Lc. 1, 38). Em terceiro lugar, recebeu o Verbo Encarnado e O carregou em seu seio. Em quarto lugar, ela O pronunciou quando a Ele deu a luz. Finalmente, nutriu-O e amamentou-o. Eis porque a Igreja canta: “A Virgem amamentava, fortalecida do céu, o próprio Rei dos Anjos”.

 

Continua ( texto em formatação)...